terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Uma Vida Melhor

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Vida Melhor, Uma (A Better Life, 2011)

Estreia oficial: 29 de julho de 2011
Estreia no Brasil: será lançado diretamente em DVD
IMDb



"Uma Vida Melhor", do diretor Chris Weitz, é repleto de humanidade em seus menores detalhes. Uma humanidade que vai desde colocar sentimentos paternais em truculentos membros de uma gangue, até o fato de um senhor roubar a caminhonete e as ferramentas da única pessoa que lhe ofereceu trabalho, para poder alimentar sua família.

E o que torna essa produção tão forte e contundente é a sua capacidade de se colocar próxima do espectador. Talvez o fato de sermos brasileiros contribua para isso, já que os protagonistas deste longa são mexicanos emigrados para os Estados Unidos e que, assim como (e ainda em maior quantidade) muitos brasileiros sofrem com a sua situação ilegal naquele país. Porém, independente disso, é fato que o roteiro de Eric Eason consegue a proeza de transformar esses personagens em pessoas 'comuns' - uma história que muito bem poderia acontecer com um vizinho, um amigo, um parente, ou até com você mesmo, tamanha é a coloquialidade do seu discurso.

A relação entre pai e filho, Carlos (Demián Bichir) e Luis (José Julián), é o que norteia a narrativa. Assim como as escolhas que ambos fazem para, como diz o título, ter "uma vida melhor". Não são escolhas grandiosas ou 'de vida ou morte', mas pequenas decisões, dessas que tomamos todos os dias, e que estabelecem nossas ações e nos definem como pessoa.

A opção de Weitz em manter um 'ar documental', com sua câmera colocada, na maioria das vezes, próxima aos atores, e uma fotografia mais naturalista ajuda na identificação e aproximação do espectador. O cineasta também acerta no tempo em que dá para seus atores desenvolverem seus personagens e demonstrarem seu talento. Surpreendente eu diria, já que Weitz até fez um ótimo trabalho em "Um Grande Garoto" (2002), mas seus últimos trabalhos deixavam a desejar: "A Bússola de Ouro" (de 2007, que tem seus momentos, é verdade); e o péssimo "A Saga Crepúsculo: Lua Nova" (2009).

Mas são mesmo as atuações que elevam o valor de "Uma Vida Melhor". José Julián consegue transmitir toda a angústia e indecisão de um adolescente que cresce dividido entre duas (ou mais) realidades: a mexicana (representada por seu pai, e cujo idioma, espanhol, já não é mais a sua língua-mãe), e a estadunidense (o país em que praticamente se criou - e seu inglês quase sem sotaque denota claramente isso); o caminho do trabalho duro, que certamente não lhe trará riquezas (afinal é um mexicano pobre vivendo com um pai ilegal), ou o envolvimento com gangues - o que poderia lhe proporcionar maiores facilidades econômicas. Mas é mesmo Dámian Bichir a 'alma' do longa - o seu Carlos é um homem correto, que cuida sozinho do filho adolescente, e cuja maior preocupação é ver seu filho crescer honestamente e se tornar um homem respeitável. Há preocupação e tristeza no olhar de Carlos, mas há também amor e carinho. E são nos momentos de maior intimidade entre pai e filho, que a atuação de Bichir cresce e 'engole' a tela - não há como não se emocionar com aquele sujeito tão verdadeiro.

Mas há problemas, é claro. Ao meu ver, principalmente no ritmo da narrativa e com relação à trilha musical, que parece tentar evocar sentimentos grandiosos, épicos demais, enquanto deveria apostar numa abordagem mais intimista, como o restante do filme o faz.

No geral, porém, mostrando uma Los Angeles que comumente não é vista nos filmes, com sua diversidade cultural, social e econômica - e não como cartões postais de Hollywood -  "Uma Vida Melhor" comove por colocar temas maiores, como os imigrantes ilegais ou a falta de oportunidade de trabalho, como pano de fundo para um drama muito mais intimista: o relacionamento entre um pai e seu filho.

E nunca achei que fosse dizer isso a respeito de um filme de Chris Weitz, mas há muito de "Ladrões de Bicicleta" (1948, de Vittorio De Sica), em "Uma Vida Melhor".

Fica a dica!


por Melissa Lipinski


Um comentário:

Phoenix disse...

Olá.
Conheci o blog por acaso e gostei bastante. Parabéns!