terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

A Dama de Ferro

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Dama de Ferro, A (The Iron Lady, 2011)

Estreia oficial: 26 de dezembro de 2011
Estreia no Brasil: 17 de fevereiro de 2011
IMDb



Margaret Thatcher foi uma das mulheres (senão 'a' mulher) e uma das figuras políticas (dentre homens e mulheres) mais influentes do século passado. Sua personalidade forte, suas decisões polêmicas e suas fortes convicções políticas garantiram que fosse eleita três vezes a Primeira Ministra da Grã-Bretanha (uma marca até hoje inigualada). Portanto, era de se esperar que o filme que retratasse a trajetória dessa mulher fosse, no mínimo, interessante. Porém, apesar de uma estupenda atuação de Meryl Streep e uma ótima maquiagem, não há nada, mas nada mesmo que se salve nesta produção.

O roteiro escrito por Abi Morgan adota uma estrutura narrativa não apenas deselengante, mas extremamente desmerecedora da figura da Dama de Ferro, optando retratá-la como uma senhora senil (não se sabe por causa do mal de Alzheimer ou loucura) que revê momentos entrecortados de sua vida enquanto é atormentada pelo fantasma de seu marido morto, Denis (Jim Broadbent). Assim, a narrativa intercala-se entre Thatcher em sua casa falando com um alucinação, e flashbacks que não conseguem dimensionar a grandeza da mulher que tinha em mãos para retratar.

Nunca contextualizando a vida política da ex-Primeira-Ministra, os flashbacks saltam de um acontecimento a outro, sem jamais explicá-los. Assim, em um momento a vemos decidindo se candidatar ao Parlamento, e logo em seguida, já ficamos sabendo que ela foi eleita, para logo depois vermos, com surpresa, que já se tornara líder do Partido Conservador, para, num salto parecido de tempo, descobrirmos que já é Ministra da Educação e, como num passe de mágica, Primeira-Ministra. Tal estrutura impede que a personagem consiga evoluir diante de nossos olhos, e vemos suas transformações como formalidades necessárias e impostas pelo roteiro, e não como uma evolução natural ou amadurecimento daquela mulher.

Mas não apenas o desenvolvimento da personagem é falho. Toda a situação política, o contexto, é equivocado. Assim, Thatcher é sempre colocada como uma espécie de 'salvadora da pátria', e os problemas e crises pelos quais a Inglaterra passava são retratados como sendo alheios à figura da Primeira-Ministra. Como se ela estivesse ali para tentar contorná-los a todo modo, e não fosse, também, a sua causa. Assim, tanto a roteirista quanto a diretora, Phyllida Lloyd (do abominável "Mamma Mia!"), posicionam-se como 'passando a mão na cabeça' de Thatcher, fechando os olhos para seus reais atos políticos. E o que dizer da cena que a coloca como alta estrategista de guerra, diante de uma mesa repleta de miniaturas de navios, como se, sozinha, houvesse arquitetado a vitória da Inglaterra na Guerra das Malvinas?! Ou então, os momentos em que se coloca como a 'mãe de todos', servindo chá logo depois de uma discussão política, ou escrevendo de próprio punho cartas para as famílias dos soldados mortos na Guerra!?

Contando ainda com uma direção repleta de equívocos de Lloyd, que abusa dos clichês e posicionamentos/movimentos de câmera 'padrão' para reafirmar seu discurso, chega a ser chocante que uma atriz do calibre de Meryl Streep, pela segunda vez, trabalhe em parceria com a diretora - e novamente em um projeto que beira o patético.

E chega a espantar - e confirmar o seu imenso talento como atriz - o fato de Streep conseguir uma atuação brilhante mesmo em 'situações adversas'. Não apenas os gestos e a postura da Dama de Ferro são brilhantemente (e naturalmente) incorporados pela atriz, como a sua mudança de tom de voz ao longo de sua carreira. E, mesmo a patética figura da Thatcher 'insana' retratada por Lloyd, consegue ganhar alguns contornos mais comoventes quando Meryl Streep toma conta das cenas.

Como falei no início, há que se destacar também o ótimo trabalho de maquiagem, que convence justamente pelos detalhes: basta notar a maquiagem do pescoço e mãos da Thatcher envelhecida para compreender o que estou falando. Um trabalho que, assim como o de Streep, destoa do seu produto final.


por Melissa Lipinski


5 comentários:

Denise Silva Arantes disse...

É mesmo uma pena que eu vá assistir a um filme que não faz jus ao mega talento de ninguém menos que MERYL STREEP. Mas, o que se há de fazer? O filme está pronto, e precisamos assistir ao filme pelo qual minha diva está concorrendo ao Oscar de melhor atriz...

CinemaComMel disse...

É mesmo uma pena, Denise. E eu diria mais: um desrespeito - não só à brilhante atriz que é Meryl Streep, mas principalmente à ex-Primeira Ministra britânica, uma mulher que, mesmo para quem não partilha de suas ideologias, deve ser respeitada e dada o devido crédito pelas suas conquistas e realizações.
Melissa Lipinski

Marcelo disse...

Eu assisti o filme. Não achei lá essas coisas. Mas também não chega a ser um filme que se perde tempo assistindo. Eu queria assistir ele desde de que soube que iria sair, principalmente com Meryl. Vou esperar "My Week With Merylin" agora. Quero ver se deu jus ao o que ganhou!

Bom post, sempre acompanhando seu blog!

CinemaComMel disse...

Obrigada, Marcelo.

Também estou na expectativa do "Sete dias com Marilyn". Tomara que dê para assistir ainda antes do Oscar.

Continue comentando por aqui... É sempre bom ouvir diferentes opiniões.

Melissa Lipinski

Sara disse...

Eu acho que você sempre tem que estar alerta para os filmes, eu espero que em algum momento têm a chance de fazer ao ter uma refeição, enquanto eu gosto de um bom filme em restaurantes em alphaville