terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Os Descendentes

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.
 
Descendentes, Os (The Descendants, 2011)

Estreia oficial: 9 de dezembro de 2011
Estreia no Brasil: 27 de janeiro de 2011

"Os Descendentes" é o sexto longa de Alexander Payne. Dos quatro filmes aos quais assisti (além do seu segmento em "Paris, Te Amo"), posso dizer que todos têm em comum protagonistas de alguma forma inseguros e aflitos, personagens construídos com tamanha naturalidade que não nos espantaríamos se os encontrássemos andando pelas ruas, como um cidadão qualquer. Pois são exatamente isso: pessoas normais, repletas de problemas, com qualidade e defeitos como todos nós, e por isso nós, espectadores, identificamo-nos tanto com eles.

Aqui não é diferente, e o roteiro escrito por Payne, Nat Faxon e Jim Rash (baseado no romance homônimo da escritora Kaui Hart Hemmings) apresenta-nos a Matt King (George Clooney), um bem-sucedido advogado que mora no Havaí. Surpreendido por um acidente que deixou sua mulher em coma, Matt terá que encarar a difícil tarefa de cuidar de suas duas filhas - a adolescente Alexandra (Shailene Woodley) e a pequena Scottie (Amara Miller) - e, principalmente, reaproximar-se delas, já que fora um pai ausente, dedicando-se muito mais ao trabalho do que à família. Além de toda essa difícil situação, ainda terá que encarar o fato de ter sido traído pela esposa.

A história é centrada em seus personagens e em seus envolvimentos, e como acontecia nos seus filmes anteriores, Payne consegue transitar entre o drama e a comédia com imensa naturalidade, evitando cair em clichês fáceis, e transformando a capacidade dos personagens em encontrar felicidade, descontração e humor mesmo diante das piores adversidades no seu elo com o público.

Tal proximidade com o espectador vai sendo criada aos poucos, através de atos aparentemente desnecessários, como o pedido de desculpas que Matt faz a filha caçula pedir para uma colega de escola; ou quando Matt e Scottie vão buscar Alex no colégio interno e encontram-na embriagada; ou ainda a visita dele e suas filhas aos sogros, para avisar da condição da esposa. São momentos que vão ajudando a construir a personalidade não só de Matt e suas filhas, mas também dos personagens mais coadjuvantes, como o sogro do protagonista, Scott (Robert Forster), que, em um primeiro momento parece insensível e cego para a verdadeira personalidade da filha, mas que esconde-se atrás desta 'máscara' para conseguir aguentar as adversidades que a vida lhe impôs: não só sua filha está em coma, mas sua esposa está num estágio avançado do Mal de Alzheimer. E também Sid (Nick Krause), amigo de Alex, e que pode até parecer apenas um alívio cômico para a narrativa, com suas tiradas 'sem noção', mas que, em momentos específicos, revela-se um adolescente como qualquer outro, e mais ciente de suas ações do que pode aparentar.

Mas é mesmo nas atuações dos membros da família King que está a força de "Os Descendentes". A pequena Amara Miller encanta pela subversão e maturidade para uma menina de dez anos e, ainda que sua insubordinação possa garantir algumas risadas, serve também para uma discreta análise a respeito de uma geração que não mais enxerga hierarquia dentro do núcleo familiar. Além da excelente Shailene Woodley, que foge do estereótipo fácil da adolescente problema e acaba se mostrando bastante madura para uma garota de 17 anos - apesar de sempre revelar uma curiosa e paradoxal imaturidade, principalmente durante a busca na qual auxilia seu pai. Mas é mesmo George Clooney quem rouba a cena e transforma seu Matt King em mais um dos 'homens comuns' da galeria de filmes de Alexander Payne. Matt apesar de toda segurança profissional (demonstrada através da subtrama envolvendo um terreno de família, e pelo respeito que seus primos nutrem por ele), demonstra exatamente o oposto quando se trata de sua família, porém sempre mantendo uma incrível honestidade, inclusive ao tratar de assuntos sérios com suas filhas, chegando até a dividir responsabilidades demais com Alex, colocando-a em situações difíceis e delicadas para uma adolescente.

Apostando em uma iluminação 'natural', Payne e seu diretor de fotografia, Phedon Papamichael, fazem bom uso das deslumbrantes paisagens havaianas, filmando-as constantemente sob um céu nublado, o que traduz de forma espetacular os sentimentos de seus protagonistas: apesar de morarem em um paraíso natural, suas vidas não estão nem perto de ser o 'arco-íris' que muitos poderiam imaginar, como o próprio protagonista relata no início do filme; e o tom acinzentado de algumas cenas externas evidenciam essa melancolia.

Com uma narração em off que se mostra às vezes interessante e em outras totalmente desnecessária, e uma trilha musical 'óbvia', com sons nitidamente havaianos, "Os Descendentes" foge do melodrama fácil, e emociona tanto nos momentos mais descontraídos quanto naqueles de maior comoção de seus protagonistas, como o choro subaquático de Alex, a revelação que esta faz ao pai, a 'briga' de Matt com sua esposa, ou a sua despedida final.

E o faz justamente porque conseguiu que nos importássemos com aqueles personagens, e o seu maravilhoso plano final (ao 'som' de Morgan Freeman) é uma prova disso: não estamos ali apenas testemunhando a união de um pai com suas filhas, mas também nos sentimos parte daquela família.

Fica a dica!


por Melissa Lipinski
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Um filme de atuação. George Clooney numa situação bem delicada: quase viúvo, com duas filhas que não o respeitam, e ainda descobre que era traído. Ele consegue nos mostrar que não é uma pessoa que gosta confrontar as pessoas, não é explosivo e nem age por instinto.

Um dos grandes méritos do filme é tratar de um tema muito delicado que é a morte evidente da esposa e como tratar disso com os filhos, família e amigos.

Outro grande mérito é a grande atuação de Clooney. Ele nos apresenta um personagem meio apático, mas que, com o passar do filme, vamos nos compadecendo da causa dele.

A atuação das meninas também é muito boa (Shailene Woodley e Amara Miller).

Uma coisa que gostei é mostrar o Havaí como cidade, tirando essa de só ter praias e cenários. Cidade, prédios, trânsito... isto foi bem legal.

Recomendo.


por Oscar R. Júnior



segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres (The Girl with the Dragon Tattoo, 2011)

Estreia oficial: 20 de dezembro de 2011
Estreia no Brasil: 27 de janeiro de 2012
IMDb



Quando soube que "Os Homens que Não Amavam as Mulheres" iria ganhar uma versão estadunidense fiquei apreensiva. A versão sueca dos livros de Stieg Larsson era correta e, ainda que não mantivesse uma grande fidelidade narrativa à obra literária, o cerne de sua protagonista e, consequentemente, do livro, havia sido preservado. No entanto, ao saber que a versão yankee seria comandada por David Fincher, a apreensão deu lugar à ansiedade. Admiradora do trabalho do cineasta, confesso que a esperança de ver um filme ainda melhor que o original sueco superava o receio da 'americanização' da história.

E meus anseios, felizmente, confirmaram-se. Muito mais fiel à obra de Larsson, o longa comandado por Fincher evita a tal 'americanização' (apesar de ser falado em inglês), principalmente por preservar a localização da sua trama na fria Suécia, o que colabora não apenas para o desenvolvimento da história (já que os cenários são realmente importantes para que ela aconteça), mas também contribui para a sua estética; além de ser um respeito e uma homenagem ao seu autor e à obra original.

Como falei, o roteiro de Steven Zaillian mantém-se fiel ao livro, não só no que tange ao comportamento de seus personagens, mas também (e o que a versão sueca não fazia) à sua estrutura narrativa. Logo no início vemos o jornalista Mikael Blomkvist (Daniel Craig) sendo condenado por ter escrito e publicado uma matéria na qual acusava um poderoso empresário sem provas materiais e contundentes. Para não afundar ainda mais a sua revista, Millennium, Blomkvist decide aceitar uma proposta um tanto quanto inusitada do milionário Henrik Vanger (Christopher Plummer): investigar o desaparecimento de sua sobrinha favorita, Harriet, ocorrido há 40 anos, e cujo possível assassino só poderia pertencer à própria família Vanger, que aliás, é repleta de tipos, no mínimo 'curiosos', como ex-nazistas e pessoas nem um pouco amigáveis ou simpáticas. Para essa investigação Mikael acaba solicitando a ajuda da hacker Lisbeth Salander (Rooney Mara), que havia levantado a sua ficha pessoal e profissional para que o próprio Henrik Vanger descobrisse um pouco mais a respeito do jornalista. Acontece que Salander tem seus próprios problemas: considerada incapaz, desde os 12 anos foi colocada sob tutela do Estado, e 'coleciona' uma sucessão de episódios violentos em sua vida. Assim, Salander e Blomkvist passam a investigar o suposto assassinato, revelando segredos há tempos escondidos pela família Vanger.

Bom, se considerássemos apenas os aspectos técnicos, o longa de Fincher já mereceria todos os aplausos possíveis. A começar pela sua excelente e criativa abertura que, através de suas formas, revela toda a confusão que cerca a vida e a personalidade da protagonista, Lisbeth. Já a fotografia de Jeff Cronenweth acerta na maneira como transforma as paisagens brancas (de neve) da Suécia em ambientes sufocantes e frios, que refletem, talvez, a natureza dos próprios personagens, e que só é amenizada nos raros momentos em que vemos Mikael Blomkist com sua filha. Assim como a inteligente escolha em manter enquadramentos que, posteriormente na história, entenderemos seu real significado, como manter Lisbeth ao fundo e desfocada, quando vemos, em primeiro plano, a foto da família de seu tutor, Nils Bjurman; ou quando ele mesmo levanta-se de sua mesa e a câmera mantém-se baixa, na altura de sua barriga - o que, aliado a eventos futuros, transformam-lo em uma figura repulsiva; ou ainda, no apartamento de Bjurman, como a câmera afasta-se (num travelling out) de uma porta fechada, como que não querendo revelar o que está prestes a acontecer lá dentro.

Igualmente competente é a sua direção de arte, que transforma cada residência numa espécie de prolongamento do seu dono, e revela muito de sua personalidade pelas suas cores, objetos e arrumação, por exemplo (o que acaba tornando-se essencial para o bom andamento da trama, já que tal fato ajuda no desenvolvimento e na diferenciação do grande número de personagens que aparecem).

Mas, de todos os aspectos técnicos, certamente é a montagem de Kirk Baxter e Angus Wall que merece maior destaque. Levando de forma paralela as histórias de Salander e Blomkvist até quase a metade do longa, a narrativa jamais perde a fluidez; isso sem contar que ainda possui um terceiro aspecto: os inúmeros flashbacks que contam a história passada de Harriet. Sem nunca perder o ritmo, os 158 minutos de filme jamais parecem se fazer notar, tamanha a agilidade e habilidade com que os montadores 'orquestram' as várias linhas narrativas.

Aliado a isso, David Fincher consegue criar um clima de apreensão que percorre a sua história do início ao fim, sem com isso, descuidar do desenvolvimento de seus personagens centrais. E é notável que o diretor confie tanto em seus personagens que mantenha a estrutura narrativa do livro de Larsson, onde continua a história mesmo depois do seu conflito principal ter sido solucionado - e se isso pode funcionar bem na literatura, é um artifício bastante arriscado no cinema. Mas o diretor consegue manter o espectador atento não só à solução da ação, digamos assim, mas também ao desfecho particular de seus protagonista, numa espécie de epílogo que dura mais de 10 minutos.

Mas o longa é mesmo de seus dois protagonistas. Daniel Craig consegue tornar o seu Mikael Blomkvist milhões de vezes mais interessante do que o protagonizado pelo sueco Michael Nyqvist. Seu jornalista é inteligente e 'durão', porém não da mesma forma impassiva com que Craig interpretava James Bond ou seu personagem em "Cowboys & Aliens", por exemplo. Aqui, o ator demonstra muito mais sensibilidade e empresta detalhes a Mikael Blomkvist que o tornam mais 'real', como seu semblante atemorizado quando se vê em situações de perigo, ou sua insegurança quando está em um avião, apenas para citar duas características.

Mas é mesmo Rooney Mara a 'alma' do filme. Se Noomi Rapace já conseguira transformar Lisbeth Salander em uma criatura extremamente complexa e paradoxal num visual bastante peculiar, Mara vai além, numa composição ainda mais audaz. Se seu 'look punk', com suas roupas pretas, seu penteado ousado e seus piercings são intimidadores, a postura da garota diz exatamente o contrário: andando levemente 'encolhida', com os ombros contraídos, Lisbeth evita encarar as pessoas com quem fala (a não ser em momentos de maior tensão ou intimidade) - como se quisesse se enconder do mundo e, ao mesmo tempo, chamar sua atenção; e se consegue ser fria e mal educada com a grande maioria dos seres humanos, recusando-se a um mero cumprimento, mostra um carinho filial com seu antigo tutor, Holger Palmgren. Mara ainda consegue sutilezas na sua interpretação que revelam muito de sua personalidade, como no momento em que Blomkvist vai mostrar-lhe algo no computador e ela, nitidamente (ainda que discretamente) mostra-se irritada pela sua lerdeza (lembrem-se que ela é uma hacker, e das melhores!); ou no momento em que, depois de um ato covarde de violência, decide realizar mais uma tatuagem exatamente sobre um local machucado da sua perna e, ao ouvir o tatuador alertá-lo sobre a dor que sentirá, apenas dá de ombros, como se aquilo não fosse nada comparado às várias 'porradas' que já levou da vida - e notem o paradoxo: apesar de suas maneiras e suas roupas serem hostis e agressivas (em uma determinada cena, sua camiseta traz escrito "fuck you, your fucking fuck"), sempre que é vista se alimentando, está comendo um Mc Lanche Feliz. Porém, Lisbeth não é indefesa, e se transforma em um verdadeiro 'animal' quando se sente ameaçada, capaz de cometer atos tão violentos quanto os que sofre - o que a transforma em uma pessoa extremamente imprevisível e realmente perigosa. E, assim como nos identificamos pela sua fragilidade e a admiramos pela sua inteligência muito acima da média, também sentimo-nos inseguros frente à sua instabilidade emocional e carência de traquejo social.

Enfim, "Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres" não é apenas um thriller investigativo extremamente eficiente, mas um excelente estudo de personagens. E, assim como Noomi Rapace já o fizera, Rooney Mara transforma Lisbeth Salander numa das (anti-)heroínas mais interessantes e complexas da história do Cinema.

Agora o grande problema: David Fincher conseguiu me deixar ainda mais angustiada do que estava antes de assistir ao filme, já que não vejo a hora de encontrar novamente Lisbeth e Blomkvist nas suas duas continuações…

Fica dica!


por Melissa Lipinski
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Regravação do excelente filme sueco. Confesso que quando soube que iam regravar fiquei com pé atrás. Mais uma regravação!! Daí vi que quem ia dirigir era, nada mais nada menos, que David Fincher ("Clube da Luta", "Seven", "A Rede Social"). Após ver o filme, porém, percebo que a decisão foi muito acertada. Não que a versão sueca seja ruim, mas esta nova versão é muito melhor.

Os personagens: Mikael Blomkvist (Daniel Craig) é muito melhor construído. Agora sim pudemos ver tudo o que esta personagem tinha a mostrar. Já a Lisbeth Salander (Rooney Mara) consegue superar a Lisbeth da versão sueca (e olha que Noomi Rapace estava excelente naquele filme). Lisbeth por um lado se veste de forma mais agressiva, no estilo punk, e anda sem encarar as pessoas, de cabeça baixa, tentando passar desapercebida. Ao se sentir acuada ela parte para o ataque como um bicho feroz. Muito boa a construção e a atuação de Rooney Mara.

Junte a tudo isso uma direção primorosa, cenários que fazem valer a pena o filme se passar na Suécia e uma montagem muito bem construída e executada.

Recomendo muito. (Também recomendo ver a trilogia original).


por Oscar R. Júnior


domingo, 29 de janeiro de 2012

18º Screen Actors Guild Awards - 2012

Att: vencedores em vermelho.

ELENCO - FILME
- O Artista (The Artist)
- Missão Madrinha de Casamento (Bridesmaids)
- Os Descendentes (The Descendants)
- Histórias Cruzadas (The Help)
- Meia-Noite em Paris (Midnight in Paris, 2011)

ATOR - FILME
- Demián Bichir - Uma Vida Melhor (A Better Life)
- George Clooney - Os Descendentes (The Descendants)
- Leonardo DiCaprio - J. Edgar
- Jean Dujardin - O Artista (The Artist)
- Brad Pitt - O Homem que Mudou o Jogo (Moneyball)

ATRIZ - FILME
- Glenn Close - Albert Nobbs (Albert Nobbs)
- Meryl Streep - A Dama de Ferro (The Iron Lady)
- Tilda Swinton - Precisamos Falar Sobre o Kevin (We Need to Talk About Kevin)
- Michelle Williams - Sete Dias com Marilyn (My Week with Marilyn)

ATOR COADJUVANTE - FILME
- Kenneth Branagh - Sete Dias com Marilyn (My Week with Marilyn)
- Armie Hammer - J. Edgar
- Jonah Hill - O Homem que Mudou o Jogo (Moneyball)
- Nick Nolte - Guerreiro (Warrior)
- Christopher Plummer - Toda Forma de Amor (Beginners)

ATRIZ COADJUVANTE - FILME
- Bérénice Bejo - O Artista (The Artist)
- Jessica Chastain - Histórias Cruzadas (The Help)
- Melissa McCarthy - Missão Madrinha de Casamento (Bridesmaids)
- Janet McTeer - Albert Nobbs (Albert Nobbs)
- Octavia Spencer - Histórias Cruzadas (The Help)

ELENCO - SÉRIE DE COMÉDIA
- "30 Rock"
- "The Big Bang Theory"
- "Glee"
- "Modern Family"
- "The Office"

ELENCO - SÉRIE DE DRAMA
- "Boardwalk Empire"
- "Breaking Bad"
- "Dexter"
- "Game of Thrones"
- "The Good Wife"

ATOR - SÉRIE DE COMÉDIA
- Alec Baldwin - "30 Rock"
- Ty Burrell - "Modern Family"
- Steve Carell - "The Office"
- Jon Cryer - "Two and a Half Men"
- Eric Stonestreet - "Modern Family

ATRIZ - SÉRIE DE COMÉDIA
- Julie Bowen - "Modern Family"
- Edie Falco - "Nurse Jackie"
- Tina Fey - "30 Rock"
- Sofía Vergara - "Modern Family"
- Betty White - "No Calor de Cleveland" (Hot in Cleveland)

ATOR - SÉRIE DE DRAMA
- Patrick J. Adams - "Suits"
- Steve Buscemi - "Boardwalk Empire"
- Kyle Chandler - "Friday Night Lights"
- Bryan Cranston - "Breaking Bad"
- Michael C. Hall - "Dexter"

ATRIZ - SÉRIE DE DRAMA
- Kathy Bates - "Harry's Law"
- Glenn Close - "Damages"
- Jessica Lange - "American Horror Story"
- Julianna Margulies - "The Good Wife"
- Kyra Sedgwick - "The Closer"

ATOR - FILME PARA TV OU MINISSÉRIE
- Laurence Fishburne - Thurgood
- Paul Giamatti - Grande Demais para Quebrar (Too Big To Fail)
- Greg Kinnear - The Kennedys
- Guy Pearce - Mildred Pierce
- James Woods - Grande Demais para Quebrar (Too Big to Fail)

ATRIZ - FILME PARA TV OU MINISSÉRIE
- Diane Lane - Cinema Verite
- Maggie Smith - Downton Abbey
- Emily Watson - Appropriate Adult
- Betty White - The Lost Valentine
- Kate Winslet - Mildred Pierce

EQUIPE DE DUBLÊS - FILMES
- Os Agentes do Destino (The Adjustment Bureau) 
- Cowboys & Aliens (Cowboys & Aliens)  
- Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2 (Harry Potter and the Deathly Hallows: Part 2) 
- Transformers: O Lado Oculto da Lua (Transformers: Dark of the Moon)
- X-Men: Primeira Classe (X-Men: First Class)

EQUIPE DE DUBLÊS - SÉRIES
- Dexter
- Game of Thrones
- Southland
- Spartacus: Gods of the Arena
- True Blood

sábado, 28 de janeiro de 2012

O Pecado Mora ao Lado

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Pecado Mora ao Lado, O (The Seven Year Itch, 1955)

Estreia oficial: 3 de junho de 1955
IMDb



A grande maioria das pessoas conhece a famosa cena na qual Marilyn Monroe tem seu vestido branco levantado pelo vento que vem dos túneis do metrô. O que muita gente não sabe, no entanto, é que o tal filme sofreu vários cortes da 20th Century Fox para poder ser lançado.

Assim, "O Pecado Mora ao Lado" acabou se transformando em uma comédia de costumes que, à primeira vista, pode parecer tola e inocente, fora do padrão dos filmes de Billy Wilder; mas que demonstra tal cinismo e críticas social e moral contidas em suas entrelinhas, que não poderia ter sido realizada por outro cineasta.

O roteiro de George Axelrod e de Wilder já demonstra sua origem teatral (baseado na peça homônima do próprio Axelrod) na manutenção de pouquíssimos cenários - a trama se passa quase que exclusivamente dentro do apartamento do protagonista, Richard Sherman (Tom Ewell) que, ao mandar sua esposa Helen (Evelyn Keyes) e seu filho para passarem as férias de verão no interior, vê-se tentado 'às fraquezas da carne' ao conhecer uma sedutora vizinha (Marilyn Monroe) que locou o apartamento de cima do seu.

Muitas são as histórias que cercam essa produção: as várias modificacões que Wilder teve que fazer para não explicitar que a traição de Richard realmente se concretizava; o casamento de Marilyn com o jogador de beisebol Joe DiMaggio que teria acabado depois da cena imortalizada que citei ali no primeiro parágrafo; a dificuldade que a atriz tinha para chegar no horário e em decorar suas falas (Wilder chegou a gravar 40 takes de um só plano até que ela acertasse seus diálogos!); o contrato de Marilyn com a 20th Century Fox que garantia que ela seria a estrela dessa adaptação, e que o filme seria produzido em cores (Wilder queria tê-lo feito em preto e branco)… Enfim, a lista vai longe. Mas os boatos não interferem em nada na qualidade do longa. Claro que o final pode até ser considerado um tradicional 'happy ending', mas não se pode esquecer que o ano era 1955, e o código Hays, que impunha regras morais e de conduta aos filmes hollywoodianos, por mais que já estivesse em descenso, ainda influenciava na censura.

Mas Billy Wilder era Billy Wilder e, por mais que mudasse diversas vezes sua história, continuava deixando um diálogo escancarado ou de duplo sentido, uma pausa, um olhar ou apenas um mero suspiro que transparecesse todo o tom cínico e de crítica a uma sociedade hipócrita e machista.

Se no início do filme o cineasta já deixa bem claro a sua intenção quando o protagonista, em uma narração em off, revela o 'costume' dos cidadãos nova iorquinos ao mandarem suas esposas para longe no verão e se comportarem como solteiros; outras 'alfinetadas' do diretor soam mais discretas ou subentendidas, e assim, mesmo com toda a censura, Wilder conseguia falar sobre racismo, homossexualismo (há dois decoradores que moram juntos no último andar do prédio), e a 'objetificação' da mulher - não é à toa que a personagem de Marilyn não tem nome e, além do mais, ela tem plena consciência do efeito que causa em qualquer homem.

E por falar nisso, o filme é mesmo de Marilyn Monroe. Ela, sem dúvida alguma, possuía um magnetismo, e 'devorava' as câmeras. Além de esbanjar sensualidade (o que os seus figurinos insistiam em evidenciar) de forma inocente (o que pode parecer um contrassenso, mas é a melhor forma de defini-la), Marilyn ainda tinha carisma de sobra e um ótimo timing para a comédia. E sua química com o comediante Tom Ewell é incontestável. Aliás, Ewell também está muito bem, principalmente quando seu personagem põe-se a delirar; mas o filme ganha mesmo quando ele e Monroe dividem a cena.

Enfim, "O Pecado Mora ao Lado" é uma deliciosa comédia de costumes que pode até parecer ingênua para os mais desatentos; mas para aqueles que a olharem com mais atenção, verão toda a malícia e esperteza de Wilder presentes, mesmo que em uma 'siimples' meia-calça esquecida sobre a cama…

Fica a dica!


por Melissa Lipinski


sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Sabrina

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Sabrina (1954)

Estreia oficial: 22 de setembro de 1954
IMDb



"Sabrina" foi o décimo longa dirigido por Billy Wilder em sua fase estadunidense. E, se o cineasta já havia flertado com a comédia romântica em alguns de seus longas anteriores como "A Incrível Suzana", "A Valsa do Imperador" e "A Mundana"; foi com o filme protagonizado por Audrey Hepburn, Humphrey Bogart e William Holden que Wilder chegou ao seu melhor exemplar do gênero.

Sabrina Fairchild (Hepburn) é filha do motorista de uma rica família, os Larrabee. Ela sempre nutriu uma paixão não correspondida por um dos irmãos Larrrabee, o mais novo, David (Holden). Depois de passar dois anos estudando culinária em Paris, Sabrina retorna diferente: sofisticada e elegante. Então, imediatamente chama a atenção do mulherengo David, que já está noivo - num casamento que favorecerá os negócios de sua família. É então que o seu irmão mais velho, Linus (Bogart) entra em campo: para evitar que o tal negócio não seja colocado em risco, ele finge interessar-se por Sabrina, fazendo com que ela mesma fique em dúvida sobre qual dos irmãos ama de verdade.

Baseado numa peça teatral, Wilder chamou o seu próprio autor, Samuel A. Taylor, além de Ernest Lehman para ajudarem-no a escrever o roteiro. E a história não passa do velho conto da Cinderela transposto para a alta sociedade estadunidense.

Porém aqui, não é o roteiro quem faz a diferença, já que sabemos de antemão exatamente o que acontecerá àqueles personagens - claro que os bons diálogos colaboram (ainda mais as ácidas falas ditas pelo pai de Sabrina; ou as cínicas tiradas de Linus); mas o 'toque de Midas' desta comédia romântica é o seu afiado elenco e a química estabelecida entre os três protagonistas.

Este foi o segundo longa da atriz belga como protagonista e ela recém havia ganho um Oscar por "A Princesa e o Plebeu" (de 1953). E Audrey Hepburn empresta doçura, fragilidade e insegurança na medida certa à personagem-título. Humphrey Bogart confere a virilidade que lhe era habitual a Linus, em um personagem bastante diferente do que estava acostumado a fazer - até há um ar cínico nos primeiros momentos em que aparece, mas logo notamos que a sua frieza serve de proteção para um homem que se utilizou dessa característica para tomar conta dos negócios da família, abrindo mão de qualquer outro sentimento ou interesse particular. Porém, quando passa a conviver com Sabrina e se descobre apaixonado pela moça, a confusão pela qual ele passa é nítida, ainda que ele relute para tentar escondê-la. Já William Holden (em sua terceira colaboração com Wilder, depois de "Crepúsculo dos Deuses" e "Inferno Nº 17"), é o oposto de Linus: encantador e sedutor desde sua primeira aparição, o carisma do ator é inquestionável, e fica impossível ao espectador não sucumbir aos seus encantos (e entendemos perfeitamente Sabrina), por mais que, tanto ela como nós, saibamos de seus 'deslizes' de personalidade.

Assim, Billy Wilder transforma uma comédia romântica previsível, em um delicioso, fluido e divertido passatempo, coroado com seu estilo único e inconfundível de humor. Destaque também para a bela trilha sonora, cuja principal música "La Vie en Rose" (a canção composta e imortalizada por Édith Piaf) ganha uma versão cantada 'in loco' por Audrey Hepburn. Adorável!

Fica a dica!


por Melissa Lipinski


 

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Inferno Nº 17

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Inferno Nº 17 (Stalag 17, 1953)

Estreia oficial: 29 de maio de 1953
Estreia no Brasil: 10 de agosto de 1953
IMDb



"Inferno Nº 17" é um filme de guerra cuja trama se passa inteiramente dentro de um campo de prisioneiros durande a Segunda Guerra Mundial. Porém, o grande diferencial aqui é a sua pitada de humor. Não um humor hilário, mas sim, seco, cínico, ou seja, daquele inerente a Billy Wilder.

O roteiro escrito por Wilder e Edwin Blum (baseado em uma peça de teatro), começa justamente com seu narrador, Cookie (Gil Stratton), apresentando o próprio filme: "não sei quanto a vocês, mas eu sempre fico mal quando assisto a filmes de guerra. (…) O problema é que nunca fazem filmes sobre PDG (prisioneiros de guerra)". A partir daí, conhecemos os protagonistas dessa história, que gira principalmente em torno de descobrir quem seria o espião alemão dentro do galpão onde todos eles ficam presos. E, dentre as principais figuras ali confinadas estão Sefton (William Holden), o negociante do local; Hoffy (Richard Erdman), o chefe do galpão; seu segurança, Price (Peter Graves); e os engraçadinhos Animal (Robert Strauss) e Harry Shapiro (Harvey Lembeck).

Claro que o principal suspeito de traição será Sefton, já que, através de suas habilidades de negociação, consegue regalias que seus companheiros de prisão não compreendem. O clima de traição aumenta quando um novo prisioneiro do campo, o tenente Dunbar (Don Taylor), é ameaçado ser condenado por sabotagem a um trem nazista. Assim, para provar sua inocência, o próprio Sefton começa a investigar quem seria o tal espião que delata todo e qualquer movimento dos prisioneiros aos oficiais alemães.

O clima que Wilder emprega ao longa é o da camaradagem: todos ali, prisioneiros de guerra, confraternizam e bolam seus estratagemas em conjunto. Quando um elemento entra em dissonância com o grupo - Sefton - ele logo é acusado, e o clima passa a ser de tensão. Claro que há a tensão própria pela presença dos oficiais nazistas, mas a principal é dada pelo clima de traição que impera dentro do galpão.

Mas há sempre espaço para o humor. Um humor triste, é verdade, forçado - mas como esperar algo diferente de homens que presenciaram o horror da guerra e encontram-se confinados em condições terríveis? E as piadas e os momentos de descontração não têm o propósito de fazer o espectador gargalhar, mas sim chamar a atenção para a dureza e o absurdo da realidade daqueles homens.

Mas todas essas emoções só são bem sucedidas graças ao ótimo elenco que Wilder tinha nas mãos. William Holden (que já havia trabalhado com o diretor em "Crepúsculo dos Deuses") é a força-motriz do longa, com um personagem que não faz questão de ser simpático, já que seu cinismo é o principal motivo por manter seus companheiros afastados; porém, como o público sabe de antemão de sua inocência, a identificação com ele, injustiçado, torna-se imediata. Já Robert Strauss e Harvey Lembeck saem-se bem como a dupla de 'palhaços' do campo, cujas tiradas, como falei, têm uma função bem mais importante no roteiro do que apenas a risada pura e simplesmente. Há que se destacar a presença do excelente diretor Otto Preminger como o oficial nazista chefe do Stalag 17, Oberst von Scherbach; suas rápidas aparições roubam a cena devido a seu enorme carisma, além de sua composição caricata que, propositalmente, beira o ridículo - vale lembrar que, assim como Wilder, Preminger também era austríaco e judeu, e fora para os Estados Unidos fugindo da sombra nazista que já 'rondava' seu país antes mesmo da eclosão da guerra; os cineastas também brincam aqui com a fama de Preminger, conhecido por ser rude e desagradável com seus atores - é como se o seu oficial nazista fosse uma paródia dele mesmo.

Assim, Wilder criava mais um clássico do cinema. Um retrato cínico e realista sobre uma guerra que causou a ele mesmo perdas familiares, desespero e dor. Um drama de guerra que não mostra bombardeios, explosões ou conflitos grandiosos, mas que tem em seus personagens e nas relações entre estes o seu grande trunfo. Poderoso.

Fica a dica!


por Melissa Lipinski


   

   

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O Espião que Sabia Demais

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Espião que Sabia Demais, O (Tinker Tailor Soldier Spy, 2011)

Estreia oficial: 16 de setembro de 2011
Estreia no Brasil: 13 de janeiro de 2012
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"O Espião que Sabia Demais" passa-se em plena Guerra Fria, tendo como foco o MI6, serviço de inteligência britânico. Posicionando-se entre o conflito entre Estados Unidos (CIA) e a União Soviética (KGB), o MI6 tenta, a todo custo, conseguir informações privilegiadas que o coloquem em uma posição de destaque. E, se não bastasse toda essa tensão, o serviço secreto de sua majestade ainda tem que lidar com a traição dentro da sua própria equipe.

O roteiro escrito por Peter Straughan e Bridget O' Connor (baseado no romance homônimo de John le Carré) aborda justamente essas duas frentes. Logo no início vemos o agente Jim Prideaux (Mark Strong) em uma missão em Budapeste, tentando descobrir informações sobre quem seria o agente duplo dentro do MI6. Como a operação fracassa, seu chefe, Control (John Hurt), e seu braço direito, Smiley (Gary Oldman) são afastados do comando do MI6, que passa a ser dirigido por  Percy Alleline (Toby Jones), Toby Esterhase (David Dencik), Roy Bland (Ciarán Hinds) e Bill Haydon (Colin Firth). Porém, logo Smiley é chamado pelo governo britânico para que, secretamente, investigue a identidade do tal agente duplo; enquanto os atuais mandantes do serviço secreto tentam convencer o primeiro-ministro a apoiá-los em uma grande missão onde, supostamente, conseguirão informações valiosas sobre os planos da KGB.

O tom da narrativa imposto pelo diretor sueco Tomas Alfredson é sempre melancólico. Não só pela constante atmosfera de traição que cria, como também corroborado pela ótima paleta de cores, em tons de marrom, criada pelo diretor de fotografia Hoyte Van Hoytema; que também mantém a maioria das cenas envolta em névoas, intensificando o clima frio que ronda os personagens.

Tal clima é intensificado pela excelente direção de arte, que cria ambientes que dizem muito a respeito dos personagens. Os detalhes nas composições vão desde a ambientação das salas do MI6 até a escolha dos figurinos dos personagens. A sala de reuniões do comando do serviço secreto é um espetáculo à parte, com suas paredes revestidas com material à prova de som, e que criam um ambiente tão opressivo quanto minimalista, sem deixar de ambientar a época em que o filme se passa.

Conseguindo conduzir a intrincada trama com segurança, Alfredson e seu montador Dino Jonsäter. optam por uma narrativa não linear, que vai e volta no tempo com fluidez, sem nunca soar confusa. Porém, a espionagem que se vê neste "O Espião que Sabia Demais", em nada remete àqueles filmes de ação à la James Bond. Aqui, o jogo todo é psicológico, realizado por indivíduos mais velhos, que aparentam constante cansaço, treinados durante uma vida inteira, e que há muito desistiram de qualquer tentativa em manter uma vida pessoal (até o envolvimento 'romântico' de determinados personagens revela-se parte do jogo político).

E dentre todos estes agentes o foco, é claro, recai sobre Smiley, e o longa de Alfredson mostra-se um excelente estudo de personagem. E a atuação magistral de Gary Oldman é peça fundamental para isso. Sempre comedido e tendo absoluto controle de suas emoções, Smiley sempre aparece de forma oposta ao que seu nome sugere ('sorridente'). Ator acostumado a arroubos de interpretação, tal discrição de seu personagem chama ainda mais a atenção e comprova o enorme talento de Oldman. É admirável, por exemplo, a contenção de qualquer emoção na cena em que Smiley recebe a notícia de que será afastado do MI6; ou naquela em que flagra a traição de sua esposa; ou ainda, quando demonstra todo seu preparo e eficiência como agente, na sequência em que, dentro de um carro, uma mosca voando atrapalha a todos que insistem em espantá-la - porém, esperando o momento certo, Smiley simplesmente abre a janela para que ela saia dali. Uma belíssima síntese da personalidade do agente.

Contando ainda com subtramas que resumem com excelência o espírito do filme: sacrifícios de vidas pessoais em prol de um bem maior, "O Espião que Sabia Demais" pode até não agradar ao grande público pelo seu ritmo lento, que traduz a atmosfera fria e altamente bem calculada da trama. Porém mostra que espionagem não era (e nem o é atualmente) feita apenas com perseguições e tiroteios, mas principalmente por aqueles que detêm a técnica e a paciência em um jogo de inteligência.

Fica a dica!


por Melissa Lipinski



A Montanha dos Sete Abutres

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Montanha dos Sete Abutres, A (Ace in the Hole, 1951)

Estreia oficial: 29 de junho de 1951
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"A Montanha dos Sete Abutres" é um filme que continua atual até hoje, pois fala do caráter sensacionalista e extremamente comercial, anti-ético e inescrupuloso com que a mídia trata os acontecimentos em geral. E é incrível como um filme com mais de 60 anos consegue dialogar com o presente de forma tão crítica.

O roteiro de Billy Wilder, Lesser Samuels e Walter Newman conta como Chuck Tatum (Kirk Douglas), jornalista com uma má reputacão pelas grandes cidades por onde passou e em seus jornais de grande circulação, acaba parando em uma pequena cidadezinha do Novo México e conseguindo emprego em uma discreta redação. 'Empacado' por lá há um ano, Tatum vê num minerador (Richard Benedict) que ficou soterrado em uma montanha a chance de voltar aos grandes veículos de comunicação. Para isso, manipula o xerife local (Ray Teal), a esposa do rapaz preso, Lorraine (Jan Sterling), e os engenheiros locais para atrasar ao máximo o resgate do sujeito e assim, fazer um verdadeiro 'carnaval' a respeito do assunto, pois como ele mesmo diz em certo momento: "um homem preso numa mina é melhor do que 84. Você lê sobre 84 pessoas, ou sobre um milhão, como na fome da China, e esquece. Mas um homem é diferente: você quer saber tudo sobre ele". E Tatum utiliza dessa máxima para se tornar o único que tem acesso ao rapaz preso, Leo, e portanto, concentra (e manipula) as informações. Aos poucos, um incidente local que poderia ser resolvido em dois dias, transforma-se em um espetáculo nacional, arrastando-se por mais de uma semana.

Como não poderia deixar de ser em um filme 'wilderiano', os diálogos são inteligentes, ágeis e repletos de cinismo e duplo sentido. Tatum fala para seu novo chefe quando está sendo contratado: "eu já menti para homens que usam cintos e também para homens que usam suspensórios, mas não seria estúpido a ponto de mentir para um homem que usa cinto e suspensórios". E, se a frase pode não representar muito a princípio, aliada à excelente composicão do figurino do protagonista, torna-se quase que um marco do longa. A princípio inescrupuloso e sem qualquer traço aparente de caráter, não se nota em Tatum nem um dos acessórios que ele cita ao patrão (pelo menos não de forma saliente); porém, à medida em que os acontecimentos que ele provocara começam a fugir do seu controle, ele passa a usar tanto cinto como suspensório, numa clara alusão de que está mudando sua maneira de ver as coisas, com um certo senso de moral.

Mas engana-se quem acha que o longa de Wilder é um filme de redenção. Por mais que Tatum, de certa forma, arrependa-se do que fez; suas ações deixam marcas que jamais poderão ser apagadas. Já Lorraine parece não sentir remorso algum: para ela que "não reza para não desfiar suas meias", o fato do marido ter ficado preso na montanha representa apenas uma forma de melhorar os negócios, já que o alarde feito pelo jornalista começa a atrair curiosos de todas as partes do país - inclusive um circo é montado aos pés da tal montanha, para entreter quem ali espera ver Leo ser resgatado.

É Wilder criticando não só a mídia, mas a vontade que o povo sente pelas notícias fantasiosas e sensacionalistas. E o cineasta toca fundo na ferida e não poupa ninguém: nem o xerife que vê a chance de alavancar mais uma candidatura; nem os oportunistas de plantão, que surgem cobrando por doces, brinquedos e até músicas compostas para o resgate; nem a família humilde e 'inocente', que está ali apenas para 'observar'. E ver uma multidão saltando histérica de um trem apenas para ficar olhando uma montanha sendo escavada deixa de ser engraçado e passa a ser assombroso.

Fazendo um minucioso estudo sobre a natureza humana, "A Montanha dos Sete Abutres" ainda traz excelentes atuações. Kirk Douglas e Jan Sterling conseguem o mais difícil: provocar a antipatia imediata no espectador, o que torna-se essencial para que o filme 'funcione'.

"O circo acabou", grita Tatum ao final, frustrando a turba de observadores. Infelizmente, e como Billy Wilder bem o sabia, o tal circo jamais acabará…

Fica a dica!


por Melissa Lipinski



terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Oscar: Todas as edições


segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Sherlock Holmes: O Jogo das Sombras

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Sherlock Holmes: O Jogo das Sombras (Sherlock Holmes: A Game of Shadows, 2011)

Estreia Original: 16 de dezembro de 2011
Estreia no Brasil: 13 de janeiro de 2012
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"Sherlock Holmes: O Jogo das Sombras" repete praticamente tudo o que funcionava no seu longa original, da parte técnica a detalhes do roteiro. A grande diferença aqui, é que finalmente temos um vilão com inteligência à altura do astuto detetive da Rua Baker.

Escrito por Michele e Kieran Mulroney, o roteiro começa exatamente onde o primeiro filme havia parado: Watson (Jude Law) está prestes a casar com Mary (Kelly Reilly), e Holmes (Robert Downey Jr.), inconformado com a decisão do companheiro de trabalho e aventuras, está afundando-se cada vez mais em suas neuroses. Neste contexto, Holmes descobre os planos do Professor James Moriarty (Jared Harris) que, jogando uma nação européia contra a outra, está prestes a antecipar o que viria a ser a Primeira Guerra Mundial (note-se que a trama se passa no final do século XIX). Mas, para conseguir impedi-lo, Holmes terá que contar com a ajuda não só do seu braço direito, Watson, mas também da cigana Simza (Noomi Rapace), cujo irmão, um fanático anarquista, juntou-se ao vilão.

O diretor Guy Ritchie mostra-se sem inspiração em compor algo novo - ou simplesmente preguiçoso - repetindo os mesmos efeitos do longa de 2009. E as sequências que, na época, eram inspiradas; agora soam apenas como repetições que, sim, funcionam (como já funcionavam), mas não encantam. Há as antecipações que o herói faz frente a alguns conflitos 'mano a mano' com seus adversários; e a cena clímax de ação que intercala câmera lenta, câmera rápida, movimentos circulares de câmera, e explosões em sequência.

Na verdade, Ritchie aposta novamente na montagem frenética para dar ritmo à narrativa, principalmente nas cenas de ação. E se essas sequências conferem um ritmo acelerado ao longa (o que é praxe na filmografia do diretor), os vários flashbacks acabam sabotando-o, frequentemente tornando-o mais lento e arrastado. E, se esses momentos, por mais que em sua maioria sirvam para elucidar o pensamento brilhante de Sherlock Holmes; em parte soam desnecessários por apenas mostrarem o que acontecerá nas cenas seguintes, revelando-se repetitivos.

Novamente destacando-se por sua excelente parte técnica - não só nas sequências de ação como já enfatizei, o longa de Guy Ritchie ainda conta com uma belíssima direção de arte, que recria de forma impecável (ainda que digitalmente) o visual de cidades como Londres, Paris e Estrasburgo no final do século XIX; além dos belos figurinos: e ver uma maquiagem 'tosca' ser utilizada por Sherlock Holmes em seus disfarces apenas dá maior verossimilhança à história.

Mas o filme torna-se superior pelas suas atuações. Robert Downey Jr. parece estar se divertindo mais do que nunca, e dá o tom certo de cinismo e genialidade ao detetive; e Jude Law confere seriedade a Watson - sem mencionar a química entre eles, que continua fantástica. Mas é mesmo Jared Harris como o também genial Professor Moriarty quem rouba a cena, com seu olhar sempre superior, mas que não hesita em demonstrar a admiração que sente pelo seu rival. Aliás, as cenas em que Harris e Downey Jr. contracenam são as que realmente fazem o longa valer a pena: destaque para o confronto final entre os dois, onde o embate imaginário entre eles demonstra um raro momento de inspiração do roteiro.

Fechando o elenco há a ótima participação de Stephen Fry como Mycroft, irmão mais velho e igualmente genial de Sherlock; o maior envolvimento de Kelly Reilly na trama, que demonstra uma faceta inesperada de Mary; e o mal aproveitamento da excelente atriz sueca Noomi Rapace como Madame Simza.

Enfim, se esse "Sherlock Holmes: O Jogo das Sombras" não inova, ao menos mostra que seus personagens não perderam o enorme carisma, tornando-se um entretenimento que, ao contrário do que acontecia no longa anterior, pelo menos consegue nos fazer acreditar na genialidade de seu protagonista, já que, ao longo de toda a narrativa, somos apresentados aos elementos que, ao final, levam-no a tirar as suas brilhantes conclusões.


por Melissa Lipinski


sábado, 21 de janeiro de 2012

Crepúsculo dos Deuses

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Crepúsculo dos Deuses (Sunset Blvd., 1950)

Estreia oficial: 10 de agosto de 1950
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"Crepúsculo dos Deuses" foi a última parceria entre Billy Wilder e Charles Brackett. E que ocaso!!! A dupla que rendeu roteiros como "Ninotchka", e outros filmes dirigidos por Wilder como "Cinco Covas no Egito" e "Farrapo Humano", chegaria ao fim com sua maior obra. Uma espetacular obra-prima não só do Cinema, mas que também fala criticamente sobre o cinema, mais especificamente sobre Hollywood.

O roteiro de Brackett, Wilder e D. M. Marshman já começa de forma surpreendente. Não me recordo de um filme anterior a este que tenha uma narração em off do personagem já morto (bom, Machado de Assis já o fizera, mas na literatura, em "Memórias Póstumas de Brás Cubas"). Joe Gillis (William Holden) é um roteirista falido, que passa por uma crise de criatividade e está prestes a perder o seu carro. Tentando fugir de seus credores, ele acaba escondendo-se na garagem de uma antiga mansão no tal Sunset Boulevard (do título original). Ao contrário do que imaginara a princípio, a casa não estava abandonada, mas habitada por duas curiosas criaturas: uma antiga estrela do cinema mudo, Norma Desmond (Gloria Swanson); e seu mordomo Max (Erich von Stroheim), que acabará mostrando-se ser bem mais do que um simples serviçal. A partir daí, cria-se uma ligação entre Norma e Joe, já que esta o contrata para lapidar um roteiro que ela escrevera, baseado em "Salomé", e que, acredita, vai lhe proporcionar seu retorno às telas. Precisando de dinheiro, Joe aceita a proposta, indo também morar na casa de Norma. E é a partir daí que um estranho relacionamento se estabelecerá entre os dois. Enquanto escreve para Norma, porém, Joe começará a se envolver com a aspirante a roteirista Betty Schaefer (Nancy Olson).

Através da narração póstuma, "Crepúsculo dos Deuses" revela o seu final logo na primeira cena, ao mostrar um homem morto (que até então não sabemos quem é) boiando em uma piscina, em um belíssimo plano minuciosamente planejado por Billy Wilder, que jamais revela inteiramente o rosto do morto, mas nos deixa curiosos. Porém, logo em seguida, quando vemos Joe Gillis datilografando em sua máquina de escrever, nos atinamos que se trata da mesma pessoa. Mas como ele, o protagonista da história, foi parar ali? E por quê? São essas respostas que o roteiro responde de forma brilhante, voltando no tempo para, então, desacortinar todos os acontecimentos que levaram à morte de Joe.

A grande sacada de Wilder, na minha opinião, foi traçar uma linha muito tênue entre a ficção e a realidade de Hollywood e, para tanto, escalou nomes cujas trajetórias pessoais muito bem poderiam se confundir com seus próprios personagens. Gloria Swanson foi realmente uma grande estrela do cinema mudo. Erich von Stroheim também foi um diretor conhecido desta época (e que, inclusive, dirigiu Gloria Swanson). Há ainda Cecil B. DeMille interpretando ele mesmo. E, para complementar, o cineasta ainda chamou nomes como Buster Keaton, Hedda Hopper, Anna Q. Nilsson e H. B. Warner para interpretar a eles mesmos: assim como Norma, ex-atores do cinema mudo, que juntam-se a ela peridocamente para jogarem bridge. Além, é claro, de utilizar os estúdios e instalações da Paramount como cenário do filme.

Mas, seja pela proximidade com o tema - Swanson voltou a atuar justamente com "Crepúsculo dos Deuses", depois de nove anos longe do cinema - seja pelo seu talento nato, a atriz compõe uma personagem que exala superioridade e auto-confiança, uma verdadeira 'diva'. Porém essas características apenas servem para camuflar uma personalidade depressiva e repleta de amarguras. À primeira vista, Norma parece um estereótipo, uma caricatura de mulher; porém, aos poucos, vai revelando-se uma pessoa de fato. Uma atriz que não faz mais parte de seu tempo, estancada em sua própria realidade. Ela diz, muito apropriadamente: "Eu sou grande! Foram os filmes que se tornaram pequenos", num belíssimo, mas triste, reflexo que faz de si mesma.

E, se Gloria Swanson personifica a crítica do roteiro sobre Hollywood, o personagem de William Holden, Joe, é a crítica falada em alto e bom som. Suas falas, seja na narração em off ou em seus diálogos, são repletas de cinismos e alfinetadas à indústria cinematográfia estadunidense. Holden é sempre ambíguo - se, por um lado nos identificamos com sua vontade de vencer dentro de um meio profissional traiçoeiro, e perdoamos a exploração que faz de Norma; fica difícil também não odiá-lo ou repudiá-lo justamente pelos mesmos motivos - e são nesses momentos de paradoxo que o personagem cresce.

Há ainda Erich von Stroheim (que já havia trabalhado com Wilder em "Cinco Covas no Egito"), e dá o tom certo de rispidez e mistério ao mordomo Max. Complementando o elenco principal há Nancy Olson, que empresta vivacidade e ternura à sua Betty, dando frescor à narrativa e servindo de contraponto a tantos personagens conturbados. Ela seria a representação daqueles novos profissionais de Hollywood, que ainda não se corromperam pela indústria e seu manipulador sistema.

Tecnicamente "Crepúsculo dos Deuses" também é impecável. A fotografia de John F. Seitz mergulha os ambientes em sombras, num clima que remete ao noir, e dá o tom ambíguo que a trama sugere. A trilha musical de Franz Waxman emprega certos acordes dissonantes para pontuar o crescente tom incômodo da narrativa. E a minuciosa direção de arte de Hans Dreier e John Meehan recria com perfeição os diversos ambientes de uma antiga mansão, que já fora luxuosa, mas que, no tempo diegético (ou em que se passa a narrativa), mostra-se repleta de rachaduras, pinturas descascadas, e cuja suntuosidade deu lugar à decadência. O mesmo cuidado é tido com os figurinos de Norma e de Max. Uma impecável construção, cujos objetos de cena complementam a narrativa.

Há ainda a direção irretocável de Billy Wilder, orquestrando tudo isso, e que mescla momentos mais intimistas, dando tempo e espaço para valorizar seus atores e seus diálogos cuidadosamente escritos; com outros de extremo apuro técnico (sem jamais menosprezar o trabalho de seus atores), como a já citada cena da piscina; a cena em que Norma e Joe dançam em um salão vazio; ou o seu incrível final, quando Norma Desmod, do alto da escadaria de sua mansão, prestes a ser presa e totalmente alucinada por suas fantasias, desfila entre jornalistas e policiais estupefatos. "Estou pronta para o meu close-up, Sr. DeMille", ela diz. E Wilder termina sua obra-prima com o seu rosto enlouquecido e aterrorizante, deixando o espectador num misto de pavor e piedade.

Enfim, "Crepúsculo dos Deuses" pode até não ser o 'Wilder' favorito de muita gente (eu, particularmente, nunca consegui definir o meu), mas seu valor é incontestável. É a obra cinematográfica metalinguística máxima que já foi realizada. E as 5 estrelas lá de cima são poucas para classificá-lo!

Fica a dica!


por Melissa Lipinski


sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

A Mundana

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Mundana, A (A Foreign Affair, 1948)

Estreia oficial: 20 de agosto de 1948
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Billy Wilder ficou conhecido internacionalmente tanto pelas grandes obras-prima que concebeu, como "Crepúsculo dos Deuses" (1950), "Quanto Mais Quente Melhor' (1959) e "Pacto de Sangue" (1944); quanto pelas ótimas comédias, sempre cínicas e provocativas. Este "A Mundana" (péssimo, mas péssimo mesmo, título nacional!) pode até não se enquadrar no primeiro grupo, mas definitivamente entra para o segundo.

Há que se considerar que o filme foi feito em 1948 - com a Segunda Guerra Mundial tendo terminado há cerca de três anos, e suas 'feridas' e destroços ainda totalmente escancaradas, além do fato de os norte-americanos serem 'os heróis' da guerra; dito isto, a produção torna-se até mais ousada do que parece à primeira vista, já que o roteiro de Wilder, Charles Brackett e Richard L. Breen é uma ácida sátira à moral estadunidense.

O roteiro tampouco poupa acusações sobre os alemães (também há que se levar em conta que Wilder era judeu, e muitos de sua família morreram durante a Segunda Guerra), ainda que os fascinates olhos de Marlene Dietrich desafiem-nos (a nós, espectadores) a julgar a ela e a seu povo. Pois como ela mesmo diz em um momento do filme: "Ainda estamos destruídos demais para sermos solidários".

Mas vamos à trama: Phoebe Frost (Jean Arthur) é uma congressista dos Estados Unidos que, junto com um grupo de congressistas, vai a Berlim para analisar a conduta moral dos soldados norte-americanos. Durante tal inspeção, ela acaba descobrindo que um oficial estadunidense tem um caso com uma cantora de cabaré ex-filiada ao partido nazista, Erika von Schluetow (Dietrich). Acontece que a congressista será auxiliada em sua invertigação pelo capitão John Pringle (John Lund), justamente o oficial a quem procura, e que, para tentar despistá-la e dissuadi-la de sua missão, tentará seduzi-la.

John Lund empresta cinismo e a dose certa de mau caratismo ao capitão Pringle. Apenas para ilustrar, ele é capaz de trocar no mercado negro um bolo de aniversário (que Phoebe Frost trouxe dos EUA enviado por uma antiga namorada dele) por um colchão para Erika. Não consigo imaginar um presente menos sutil e significativo. Lembrem-se que, nessa época, Hollywood ainda encontrava-se sob a severa conduta do Código Hays que pregava toda e qualquer 'preservação' dos bons costumes, não se podia, por exemplo, mostrar - e nem mesmo insinuar - qualquer tipo de relação sexual entre os personagens. Claro que o 'bom e velho' Wilder (assim como muitos outros diretores faziam) usava de cinismo e inteligência para driblar tal código (como o exemplo que acabei de citar).

Tal crítica à 'ilibada' moral estadunidense também está na caracterização da personagem de Jean Arthur: seus figurinos e penteados são extremamente duros e puritanos, em contraponto à sensualidade e feminilidade que exalava de Marlene Dietrich. O único momento em que Phoebe torna-se mais 'feminina' é justamente quando compra um vestido alemão, mais ousado, e acaba se soltando de suas 'amarras morais' ao beber champagne em um cabaré. É Wilder alfinetando mais uma vez, como que mostrando todo o embuste contido na tão alardeada moral americana (e que ainda vemos hoje em dia, não só nos filmes).

E Jean Arthur compõe sua Phoebe Frost com o ar necessário de puritanismo, pragmatismo e organização, sem cair na armadilha de deixá-la antipática ao público. A cena em que sua personagem é apresentada ilustra bem isso: sobrevoando Berlim no avião que está levando os congressistas até lá, ela, com uma meticulosa calma, guarda seus óculos e pertences para só depois dirigir-se à janela para ver a cidade em ruínas. A graça da cena dá-se pelo contraste: de um lado a paciência da personagem, de outro, a pressa do espectador em vê-la progredir em suas ações.

Mas o filme é mesmo de Marlene Dietrich. É como se ela possuísse um íma que atrai todo e qualquer olhar. Ela é a senhora absoluta das cenas em que aparece. Sua Erika não é uma mulher romântica (como a sua 'rival' estadunidense), ela é uma sobrevivente. E, para continuar assim, faz qualquer tipo de acordo, como o relacionamento que mantém com o capitão Pringle. Não há romance entre eles (e a cena na qual conhecemos Erika demonstra isso: quando John chega ao seu apartamento em ruínas, ela está escovando os dentes; ela então, cospe nele e, quando se aproxima, ele a puxa pelos cabelos limpando o seu rosto), apenas um acordo do qual ambos tiram vantagens: ela consegue o que quer, inclusive passe livre pelas ruas de Berlim; e ele... Bom, ele consegue Marlene Dietrich!

A atriz ainda demonstra toda sua sensualidade nas cenas em que canta no cabaré. Não são músicas alegres e que servem como diversão; são canções que transmitem a dor causada pela guerra, além de ilustrar o estado deplorável a que uma grande cidade - e seus habitantes - foi reduzida.

Claro que no final há o 'happy ending' - afinal de contas, Wilder estava produzindo em Hollywood - mas o cineasta orquestra-o com humor, numa rima visual engraçada e elegante. Mas o que vale mesmo é o seu 'recheio', que, a todo momento, caminha em uma tênue linha entre a comédia despretenciosa e a dura crítica à hipocrisia dos costumes e organizacões (Congresso e Exército) norte-americanos, além de sua visão política nada gentil a respeito dos alemães. Tudo, é claro, temperado com aqueles diálogos 'wilderianos': inteligentes, ácidos e hilários.

Enfim, "A Mundana" pode não ser uma obra-prima de Billy Wilder, mas certamente é mais uma de suas ótimas e deliciosamente críticas comédias.

Fica a dica!


por Melissa Lipinski

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

A Valsa do Imperador

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Valsa do Imperador, A (The Emperor Waltz, 1948)

Estreia oficial: 30 de abril de 1948 
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"A Valsa do Imperador", escrito por Billy Wilder e Charles Brackett, acompanha Virgil Smith (Bing Crosby), um vendedor estadunidense, e seu fiel companheiro vira-latas Buttons, em sua jornada para conseguir vender um fonógrafo para o imperador austríaco Franz Joseph (Richard Haydn). Neste ínterim, eles vão conhecer a condessa Johanna von Stolzenberg-Stolzenberg (Joan Fontaine) e sua cadela Scheherazade, e, claro, ambos se apaixonarão por suas 'iguais'.

Neste seu primeiro filme colorido, Billy Wilder mais uma vez varia o gênero de seus filmes, dirigindo um musical repleto de romance e humor. E, se a história pode parecer 'bobinha' (e realmente o é), o cineasta consegue transformá-la em um entretenimento leve e divertido, além de muito bonito visualmente.

Mas claro que, tratando-se de Wilder, o humor visto aqui é inteligente e garante a qualidade do longa. Aliado a isso, o enorme talento e a ótima voz de Bing Crosby, fazendo o que sabia fazer melhor: cantando e sendo ele mesmo, garantindo naturalidade até nas mais forçadas das situações.

Joan Fontaine é o contraponto ideal para Crosby, com seu altivo e sério. E, se inicilamente ela aparenta uma mulher fria e que se acha superior, aos poucos vai 'se derretendo' pelo charme do vendedor yankee; e Fontaine é hábeil em demonstrar, com sutileza, as mudanças (previsíveis, é verdade), de sua personagem.

Ainda que os números musicais não sejam empolgantes e soem cansativos, o visual do filme, seja em suas locações 'imitando' os Alpes Austríacos ou nos grandiosos salões dos palácios do Imperador, encanta pela sua beleza e cor.

Certamente não é dos melhores filmes de Wilder, mas para quem gosta de musicais e daqueles romances antigos, inocentes mas que não menosprezam a nossa inteligência, é uma ótima pedida!


por Melissa Lipinski


   

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Os Nomes do Amor

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Nomes do Amor, Os (Le Nom des Gens, 2010)

Estreia oficial: 24 de novembro de 2010
Estreia no Brasil: 2 de dezembro de 2011


"Os Nomes do Amor" é uma peça rara: uma comédia romântica que exibe criatividade em sua narrativa, cuidado com o desenvolvimento de seus personagens, uma fotografia trabalhada 'emocionalmente' e, além de tudo, um fundo socio-político surpreendente.

Escrito pelo próprio diretor, Michel Leclerc, juntamente com Baya Kasmi, o roteiro, desde sua primeira cena, já trata de evidenciar as diferenças entre o casal protagonista, quando, olhando para câmera, eles literalmente apresentam-se: se Arthur Martin (Jacques Gamblin) tem um nome extremamente comum e uma personalidade introspectiva; Baya Benmahmoud (Sara Forestier) é uma jovem idealista, impulsiva e 'atirada', que chega a transar com homens de 'direita' afim de convertê-los politicamente. Em comum, porém, os dois trazem segredos de família: Arthur é recalcado pois jamais pode discutir com seus pais (extremamente conservadores) o passado de sua mãe - sobrevivente do Holocausto; já Baya foi molestada sexualmente quando criança, e tal assunto virou um tabu dentro de sua família liberal e engajada politicamente.

Além do cuidado minucioso dado ao desenvolvimento de seus personagens, fato que garante que o espectador se identifique e passe a torcer por eles, a narrativa comandada por Leclerc apresenta-se sempre criativa e, a cada cena, surpreende-nos de uma maneira diferente, seja mostrando as recordações dos protagonistas de forma engraçada; seja misturando os tempos narrativos; ou fazendo os personagens falarem diretamente com o espectador; ou ainda invertendo certas convenções - como na primeira cena de sexo entre Arthur e Baya, onde mostra o primeiro vestindo a moça, em vez de despi-la, num momento bastante inspirado e sensual.

Contando com atuações irretocáveis, Jacques Gamblin e Sara Forestier criam personagens adoráveis mas extremamente críveis em suas características tridimensionais, deixando os estereótipos e clichês (muito bem trabalhados por sinal) para os intérpretes de seus pais: os Martin - ultra-conservadores, preconceituosos e maníacos por tecnologia - interpretados por Jacques Boudet e Michèle Moretti; e os liberais, pró-estrangeiros, mas também preconceituosos Benmahmoud (Zinedine Soualem e Carole Franck).

Há ainda a criativa fotografia de Vincent Mathias que ilustra os momentos mais íntimos e felizes do casal com cores saturadas e contrastadas e uma textura mais granulada, que remete à imagem de uma câmera de vídeo caseira.

Tratando com um humor o tão batido tema 'opostos se atraem', "Os Nomes do Amor" ainda consegue fazer graça de situações extremamente delicadas, mostrando que, no final das contas, o que importa mesmo é subverter as regras com criatividade e talento.

Fica a dica!


por Melissa Lipinski