quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Meu País

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Meu País (2011)

Estreia oficial | no Brasil: 7 de outubro de 2011
IMDb



"Meu País" é o segundo longa de André Ristum, mas o primeiro a ser ficcional (o outro é um documentário, "Tempo de Resistência", de 2003). É um filme delicado, que trata de difíceis relacionamentos entre irmãos.

O roteiro, que Ristum co-escreveu com Marco Dutra e Octavio Scopelliti, é narrado sob o ponto de vista de Marcos (Rodrigo Santoro), filho mais velho de Armando (José), e que, vivendo na Itália como cidadão italiano, é casado com a filha de seu chefe. Forçado a voltar ao Brasil depois da morte de seu pai, Marcos se vê obrigado a colocar em ordem os negócios da família, que estão em risco devido ao vício por jogos de seu irmão Tiago (Cauã Reymond). Além do tumultuado relacionamento entre os dois irmãos, ambos ainda se vêem frente a um novo desafio: conviver com a recém descoberta meia-irmã, Manuela (Débora Falabella), fruto de um caso extraconjugal de seu pai e que tem a mentalidade de uma criança de nove anos.

A trama vai se desenvolvendo aos poucos. E as informações sobre os laços e problemas familiares entre os protagonistas vai sendo dada ao espectador não somente por diálogos, mas também por ações ou objetos vistos em cena. Aliás, o design de produção do filme é extremamente cuidadoso aos detalhes e bem feito. Todos os objetos vistos em cena tem um porquê, e parecem estar repletos de história e significados.

A história, apesar de ser conduzida pela ótica de Marcos, dispende tempo suficiente para que todos os personagens principais sejam bem desenvolvidos. E é justamente nesse cuidado com seus protagonistas que a história cresce. Os personagems vistos aqui não são meros artifícios do roteiro, mas sim tornam-se humanos, tridimensionais, com suas qualidades e defeitos.

Mas eles nada seriam sem seus atores. Para começar a expressiva participação de Paulo José (que considero um dos melhores atores brasileiros) e que, mesmo com poucos minutos em cena, consegue transmitir a sensação de arrependimento, remorso, de coisas não ditas, coisas não realizadas. Rodrigo Santoro surge contido, demonstrando seus sentimentos apenas com pequenos olhares, mas na maioria do tempo, impassível; e, se Cauã Reymond está apenas correto; é Débora Falabella quem se destaca numa composição delicada e tocante, que emociona principalmente quando está em cena com Santoro.

Embora a história se desenvola e foque-se em seus personagens, nem tudo é explicado em seus pormenores, deixando lacunas para que o próprio espectador as preencha. E o plano final (belíssimo), não traz respostas, e deixa em aberto para que cada espectador defina o destino de seus protagonistas.

Belíssima também é a fotografia de Hélcio Alemão Nagamine, com cores dessaturadas e um branco levemente estourado, que parece refletir o desgaste daqueles laços familiares. O uso de teleobjetivas que fecham os enquadramentos e desfocam o fundo condiz maravilhosamente bem com o sentimento que Ristum quer passar, o de isolamento, sufocamento - os irmãos estão ligados uns aos outros, mas não se conectam, cada um é uma ilha, ou seu próprio país, como o título se refere. E Marcos, um estrangeiro que vive na Itália, parece sentir-se da mesma maneira em seu próprio país e em sua própria família. Faz-se necessária a inocência (da deficiência) da irmã para despertar-lhe o mínimo de afeto. São personagens perdidos em seus sentimentos, em seus remorsos, suas frustrações.

Enfim, "Meu País" é um filme que trata de difíceis temáticas de forma delicada, inteligente e extremamente bela. Um longa que tem mais significados em seus silêncios do que em suas palavras, e o poético plano final prova isso maravilhosamente bem. Uma ótima estreia de Ristum!

Fica a dica!


por Melissa Lipinski


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